Como anda o seu mofo?
- Dani Althoff
- 5 de mai. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 28 de mar. de 2022
Há um tempo descobrimos que sob o gesso do nosso apartamento novinho alojava-se uma colônia de mofo que se alastrava invisível pelo teto de todo o apartamento.

Tudo continuava bonito.
Poderíamos ignorar o problema e seguir a vida, tudo funciona, o mofo só poderia
ser visto ao retirar a luminária e olhar o teto sob o gesso. E a gente até cogitou essa opção, por preguiça e comodidade. Mas seguir a vida seria assumir o risco de que algum dia tudo apodreça e caia na nossa cabeça, ou de adoecermos respirando o ar contaminado pelo mofo. Pode nunca acontecer, enfim, é um risco.
Escolhemos resolver.
E aí vem a saga de quebrar o gesso, aplicar produto no teto, recolocar o gesso, pintar.
Toda a decoração caprichada, os móveis, os eletrodomésticos, tudo precisa ser retirado, coberto. Precisamos sair de casa. Precisamos nos reajustar. Viver toda a desordem da obra, tudo fora de controle, prazos descumpridos, a gente se virando sem casa até que a obra seja concluída e possamos voltar para o nosso apartamento, com nossos móveis talvez já não tão novos, nossos eletrodomésticos, nossa de(coração), nossa iluminação, nosso porcelanato.
E ali viveríamos felizes para sempre. Ou até o ar condicionado quebrar, o cano vazar, as luzes queimarem.
A vida é um eterno tratar o mofo. Lidar com os problemas, ajustar-nos aos desafios. Para alguns os problemas da vida são mais intensos, sem acesso a ferramentas para resolvê-los. Quando o problema é falta de saúde, de dinheiro, de educação e oportunidades, às vezes a luta é para sobreviver.
Para outros as dificuldades são tão mais leves que, olhando com distanciamento, parece até uma afronta reclamar e se incomodar com a situação. White people problem. Mas a gente se incomoda, sofre, elege padrões, entra no jogo, estamos sempre em busca de algo.
Tratar o mofo obriga-nos a lidar com as próprias expectativas, aprender a ajustá-las, descobrir o que realmente importa, o que realmente nos faz feliz, entender nossos desejos, nossos anseios, nossa história, educar-nos para viver no agora. Lidar bem com isso exige entender nossas emoções e frustrações, perceber o que está ao nosso alcance fazer para transformar a nossa história e o que está além de nossas possibilidades.
Tratar o mofo é necessário, mas para enxergar o mofo é preciso olhar para dentro. O mofo se esconde no escuro, se você não joga luz, não fica atento, ele se alastra e intoxica sua vida. E alguém tóxico pode contaminar todos a sua volta.
Tratar o mofo às vezes pode dar bastante trabalho. Nos retira completamente da nossa zona de conforto. Nos obriga a quebrar algumas paredes, o gesso que ás vezes até parecia bonito e bem acabado, mas que na verdade estava podre por baixo.
Tratar o mofo às vezes exige uma ajuda profissional, alguém que entenda, que olhe com distanciamento, que saiba nos fazer as perguntas certas.
Tratar o mofo é um trabalho constante. Nunca está acabado, porque a vida é impermanente mas a gente costumeiramente age como se não fosse, como se pudessemos controlar tudo. Cabe-nos seguir observando, deixando o sol bater, a luz entrar, enxergando nossas fissuras, remendando, cuidando, fortalecendo-nos.
Em dias chuvosos pode ser mais difícil, trabalhoso, dolorido. Em outros vai ser mais leve. Mas tratar o mofo é uma necessidade contínua e, embora possa dar trabalho, nos cabe decidir se vamos agir a respeito dele ou esperar que o teto desabe sobre nossas cabeças.





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