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Malu, a vida é um sopro

Atualizado: 21 de ago. de 2023

Filha, hoje é dia 25 de janeiro de 2023, estamos chegando perto do seu quarto mês de vida fora do útero.

Hoje o dia começou normal, tomamos nosso café da manhã como sempre, seu pai leu para você, eu cuidei de você de tarde.

Porém, no meio da tarde, recebi uma notícia triste, descobri que uma amiga de infância havia falecido. O nome dela é Pollyana, ela estava tratando câncer há anos.

A Polly foi minha primeira amiga. Ela era minha vizinha na casa da Coloninha, em que vivi minha infância.

A Polly tinha três irmãos, duas primas muito próximas, uma família enorme. Ela era dois meses mais nova do que eu. Na verdade, mal dava dois meses, mas servia para eu passar nossa infância me gabando de ser a "mais velha". A gente tinha o mesmo tamanho, o mesmo peso e, por um tempo, usava roupas iguais.

A gente brincava muito no quintal, um dos nossos passatempos favoritos era explodir aqueles bulbos verdinhos da Maria-sem-vergonha, a gente chamava eles de "susto" e gostava de passar de mão em mão apertando um pouco até estourar:



Quando penso na minha infância, minhas melhores lembranças são com ela, com a família dela.

Filha, eu amo meus pais, mas nem sempre era fácil viver na nossa casa. Seu avô bebia e, na infância, isso sempre me deixava preocupada, às vezes triste. Na adolescência, revoltada. Ele nunca fez nada de mal, mas quando bebia, não dava pra contar com ele.

Na nossa casa eramos nós três, a vó Gertrudes, e às vezes recebíamos visita da família. Era uma casa normalmente silenciosa, mas quando recebíamos pessoas, havia barulho, um barulho incômodo para mim, porque, nessa época, quando recebíamos visita nos finais de semana, geralmente meu pai bebia. Era aquele barulho de bêbado falando mais alto, eu não gostava.

A casa da Polly, diferente da minha, era uma casa em que sempre havia barulho. Quatro filhos. Primas. Tios. Mas era um barulho diferente, um barulho bom, um barulho que me alegrava. Era barulho de pipoca da dona Zilá estourando para a gente comer assistindo filme. Barulho da Polly treinando piano. Barulho do Pablo e seus amigos gritando, jogando super Nintendo. Barulho do seu Pedro Paulo ouvindo Roberto Carlos. Barulho do despertador escandaloso da Pri. Barulho de cachorro latindo. Barulho de crianças brincando, barulho de bebê rindo, quando o Gustavo nasceu. Era um barulho que sempre me deixava feliz.

A sala da casa da Polly era um lugar mágico, tinha uma coleção da Barsa e eu ficava encantada com a beleza daqueles livros de capa marrom avermelhada. Tinha uns sofás enormes, bonitos. Tinha um toca discos e uma caixa de som potente.

A casa da Polly era diferente também porque sempre tinha um adulto com quem a gente podia contar.

A família da Polly me fez desejar construir um lar como aquele, com barulho, com livros, com música, com amor e com pessoas que estavam ali umas pelas outras.

Quando eu conheci a família do Felippe, aquela mulherada barulhenta, ou, como elas diriam, "estrafeguenta", eu senti o coração quentinho, do jeito que eu sentia na infância quando estava entre a família da Polly. É muito verdade aquilo que dizem, que "todas as famílias felizes se parecem, mas as famílias tristes são, cada uma, infelizes à sua maneira".

Hoje, enquanto nos despedíamos da Polly, sua família estava toda ali, em um silêncio profundo e dolorido.

Filha, é dolorido demais ver alguém tão jovem nos deixando.

Do cemitério dava para ver o mar e eu lembrei dos verões que eles me levaram para acampar na praia de Jurerê! Foi pulando com ela na piscina da associação da Caixa Econômica Federal que perdi o medo de mergulhar. Foi com ela que assisti O Rei Leão pela primeira vez e me apaixonei pela Disney! Neste 25 de janeiro, enquanto eu estava ali, enterrando minha amiga de infância, a menina magrinha que virou uma mulher forte e que adotou o lema "continue a nadar", eu agradeci muito por viver parte da infância naquele barulho bom da casa da minha vizinha. Agradeci por eles terem tantas vezes me acolhido, por terem nos ajudado quando meu pai não podia, mas também lamentei muito por ver a dor de pessoas tão queridas e só ter um abraço para oferecer.

A Polly era, como eu gostava de enfatizar, mais nova do que eu. Ela foi embora muito cedo e, apesar das batalhas que teve que enfrentar, jamais parou de nadar, de fazer amigos e de fazer barulho!

Quando o enterro acabou eu voltei para o carro, onde você e o seu pai me esperavam. Peguei você no colo para amamentar e fiquei pensando que eu espero conseguir construir para você um lar que tenha barulhos aconchegantes, como a família da Polly me ensinou que pode ser.

Espero que você tenha tempo, muito tempo, e que sempre lembre de fazer barulho. A vida é um "susto" que a gente não sabe quando vai estourar e, enquanto estiver por aqui, não importa o que aconteça, continue a nadar.









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