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Primeiras palavras para Maria Luísa

Atualizado: 21 de ago. de 2023


Eu não canso de me surpreender com o quanto a sua existência, desde muito cedo, transformou a minha.

No começo nem dava para perceber que você estava aqui dentro (olhando do lado de fora), mas você já havia mudado o meu ritmo, o meu olfato, o meu sono, a minha sensibilidade.

Não é você, são os hormônios, é o processo. Mas o processo existe por você, porque escolhemos ter você. E essa escolha nos transforma.

Eu tenho uma certa tendência a ser petulante em relação às experiências da vida, eu costumo subestimar, pensar que vou tirar tudo de letra. Às vezes eu tiro. Às vezes não.

E o começo dessa gestação foi bem mais difícil do que eu imaginei. Eu realmente não tirei de letra, porém eu me sinto grata por todas as transformações.

Cada ser humano é único, cada gestação e experiência é pessoal e singular. Mas nessa vastidão de singularidades, a gente encontra outras pessoas que já passaram por vivências semelhantes. E eu descubro a cada dia que quem já viveu a maternidade costuma oferecer uma cumplicidade, um carinho e um apoio que são uma força muito potente. Eu percebo isso em amigas, na família, mas também em mulheres que não são tão próximas. Elas entendem, elas partilham, elas ajudam. Eu aprendo a ouvir mais, extrair o que faz sentido e pode funcionar para mim, entender minhas limitações e assimilar que a vida pode ser mais fácil quando lembramos que não temos todas as respostas e nos permitimos ser ajudados.

A sua existência começou a me transformar fisiologicamente, mas em algum momento ela despertou também uma mudança no meu jeito de olhar para o mundo e me relacionar com ele.

Ainda estou descobrindo isso, mas eu tenho a sensação de que a importância das coisas se deslocou.

A vida é esse contínuo aprendizado sobre quem somos, qual o espaço ocupado pelos vínculos que criamos, de que forma nos relacionamos com o mundo. Todos temos nossas questões, mas tenho a impressão de que a sua existência me ajudou a perceber melhor algumas das minhas limitações e bloqueios. Não os resolvi - que isso é trabalho para uma vida inteira -, mas os percebo, e de certa forma eles passaram a ter um tamanho, uma ordem de prioridade diferente. É como se me transformar nessa mulher que vai trazer você ao mundo me engrandecesse um pouco, tornasse o restante menor, porque preciso estar inteira e entregue para viver a experiência de ser sua mãe.

Eu não quero viver por você, mas quero estar inteira para cuidar de você enquanto precisar de cuidados, para nutrir esse vínculo, para acompanhar seu crescimento e descobrir quais os caminhos que você vai escolher trilhar.

E a sua existência me faz pensar muito sobre os meus caminhos, as minhas reações.

Há pouco fizemos uma viagem, eu, o seu pai e você aqui dentro.

Em muitos momentos eu me peguei refletindo sobre os lugares em que estava, como me sentia neles, imaginando ainda como será o mundo em que você vai crescer. Foi a viagem em que senti mais medo. Um instinto insano de me proteger de tudo que desconhecia aflorou de um jeito que eu jamais senti antes.

Em qualquer lugar do mundo existem perigos, violência, espaços em que precisamos estar atentos. Mas eu nunca havia me sentido tão amedrontada por isso, nem tão alerta em relação a tudo que me cercava.

Senti medo ao ver pessoas brigando em uma farmácia, ao observar pessoas drogadas andando pelas ruas, ao ouvir um cara gritando no banheiro de um shopping. Senti em alguns momentos que queria ir embora, que precisava de mais conforto e segurança, que aquilo que antes era suficiente para mim e para o seu pai era agora inadmissível, que eu precisava estar segura por você.

Era um medo que ia além do que eu estava vivendo, talvez em alguns momentos justificável pelas situações, mas em outros, exagerado. E eu segui pensando em como estará o mundo quando você crescer. Vai ser mais violento? Quanto a poluição vai afetar sua vida? Vai faltar água? Você vai viajar de avião como nós fazemos? Vai comer carne? Vai conseguir perceber os perigos? Vai encontrar pessoas gentis? Vai ver paisagens bonitas?

Eu tive vontade de voltar para a nossa casa, para o conforto, para o aconchego, para a Nymeria. E me dei conta de que estava deixando a ansiedade me dominar.

Quando a gente foca nos problemas e riscos do mundo o medo pode nos paralisar. E aí a vontade de proteger impede a vida de acontecer em sua plenitude.

Na viagem eu percebi que preciso aprender a lidar com esses medos, com as minhas (e as suas) vulnerabilidades, porque é só a partir da exposição que a gente experimenta as coisas mais bonitas que existem.

É preciso ter cautela e inteligência, mas não podemos deixar de viver.

Foi a viagem em que senti mais medo, mas também foi a viagem em que tive oportunidade de ver os cenários mais lindos. E eu me emocionei em cada um deles. Eu imaginei nós três, em alguns anos, voltando para você poder ver com os seus próprios olhinhos aquela natureza exuberante e grandiosa. Imaginei nós, em algum inverno, em alguma montanha, aprendendo e ensinando você a esquiar. Imaginei pedir uma mesa para três e um suquinho pra você, naquele restaurante com decoração engraçada e colorida, cheio de comidinhas gostosas. Imaginei a gente no verão, você pisando e sentindo a areia mais macia e gostosa em que eu já pisei, brincando na praia, vendo aquele pôr do sol conosco. Fiquei emocionada e arrebatada por todas essas paisagens e também porque me dei conta de que estar ao lado do seu pai, em qualquer lugar do mundo, faz eu me sentir um pouco em casa.

Fiquei emocionada ao me dar conta do óbvio: de que você vai ter esse cara incrível para chamar de pai, vai descobrir que pode contar com ele, e logo a presença dele vai ser também casa e aconchego para você.

"Oh home, let me come home... Home is wherever I'm with you" (Home - Edith Whiskers)

Mas eu vi também miséria, e ela me tocou de um jeito mais profundo. Senti uma tristeza impronunciável ao ver pessoas em situação de rua, pessoas com muito pouco, e mesmo sabendo que o meu desejo não é capaz de mudar nada, desejei que nossas escolhas fossem sábias, que nosso impacto no mundo e nas vidas alheias as marcasse de um jeito positivo, e que todo amor que temos para oferecer a você de alguma forma ajude a tornar o mundo mais leve.

Foi a viagem em que senti mais medo, mas também a que senti mais gratidão. Respirei fundo e senti em cada partícula do meu corpo gratidão por estar viva. Por receber tanto amor dos meus pais apesar de todas as dificuldades, por ter oportunidades, por ter a chance de ver horizontes deslumbrantes, por ter um parceiro de vida que amo e com quem posso contar, por estar gestando você.

O que realmente importa no nosso caminho é quem está ao nosso lado trilhando ele.

Em breve você estará aqui, andando conosco, crescendo e se transformando, crescendo e nos transformando, como faz desde que foi concebida.

Não sei como vai ser, não sei que experiências vamos viver, mas espero que não me falte coragem.

Desde já me sinto grata pelo que recebo, e aceito com muito amor e confiança tudo o que vier.

Que sorte a nossa ter você Malu!


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